Direta de direita no olho

Yin Yang

Aproveitando o post anterior, aproveitando o aniversário de um amigo, aproveitando o papo que tive com meu pai hoje a tarde, lhes conto um acontecido.

Era alfabetização e eu estudava no colégio das Damas. Em um dos tantos recreios que passei entre jogar bola, correr e vez ou outra, arrebentar uma extremidade do meu corpo, diga-se de passagem que nesse quisito de duble de filme de ação, eu era mestre, chegaram dois marmanjos com a testosterona comendo os neurônios e esbravejando fizeram uma proposta:

- Quem ganhar na luta de boxe (sem luvas) leva estes R$ 20,00 reais!

Na época era cruzeiro mais dava em torno disso.

Acabei aceitando o desafio contra outro guri não menos pertubado pelos marmanjos que gritavam palavras ruins, debochando, de mal gosto, como se estivessem apostando numa briga de galos. Aceitei pressionado, achando que se não o fizesse estaria sendo frouxo, mulherzinha e todos essas coisas que pirraia pega mais ar que pneu de trator.

Lembro que eu e meu oponente levamos a sério, ambos em posição de boxe, estudando o movimento do outro, fazendo jogo de pernas, rodando e esperando o momento certo pra nocautear o adversário.

Num momento de descuido meu, pow, levei o primeiro soco da luta, confesso que foi o primeiro direto de direita (sem luvas) que levei no olho, pelo que me recordo o único. Quando me recuperei do susto e dor foi como se tivesse baixado em mim um instinto de sobrevivencia incontrolavel, caí de pau em cima do meu adversário de forma louca, sem técnica, soco pra tudo que era lado, com força, babando de raiva, numa fúria insana. O fato é que apartaram a luta, saiu eu e meu oponente chorando e os marmanjos fugiram com a grana…

Não sei bem o motivo, mas logo em seguida do epsódio infame, fui falar com meu oponente ou ele veio até mim, sei lá, não importa muito, o fato é que depois de algum tempo conversando estávamos nos desculpando, e descobrimos que tínhamos muitas coisas em comum, nos tornamos melhores amigos.

Na quarta série me mudei pra Caruaru e perdemos o contato. Mas assim que retornei pra Recife fui tomar aquela gelada com meu antigo oponente, sinto ainda que somos tão amigos quanto naquela época de colégio, apesar de nos vermos com menos frequencia, a amizade que nutrimos hoje é verdadeira e pura.

O caos rege a vida. Tinha tudo pra odiar aquele momento da minha infância, ficar com uma cicatriz feia na alma, mas me lembro daquele dia com um sorriso no rosto, com um agradecimento leve e sutil, que só a vida e suas artes labirínticas proporcionam.

2 Comentários

  1. Paula disse,

    16 16UTC Abril 16UTC 2009 às 22:58

    gostei do Yin Yang!! tem tudo a ver com esse momento historico, que eu nunca tinha ouvido falar =O
    imagina teus filhos escutando essas historias, vao ter ataques de nervosismo se tu contar com essa tensão toda, quase morri na parte da fúria insana!!!

  2. Tiago disse,

    17 17UTC Abril 17UTC 2009 às 9:13

    Lindo texto, emocionante!
    xero


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